QUANDO EU FUI PARDAL...

Voei para longe, para o meu já conhecido bosque. Parecia-me que ali, talvez, fosse o melhor sítio para me abrigar, entre pássaros como eu.
Já estava lá a chegar quando me apareceu, vindo não sei donde, um falcão que me pareceu assustadoramente grande e que me perseguiu, calculo com que intenções… Às tantas, estava com tanta fome como eu!…
Com o coração quase a saltar do peito, bati as asas o mais rápido e forte que pude, tentando escapar-lhe. Mas ele perseguia-me, impiedosamente. E não poderia chamar-lhe selvagem e assassino por me querer comer, pois compreendi que tudo isto pertence ao ciclo da vida. Uns matam para comer para assim poderem continuar vivos. É a tão falada lei da sobrevivência. Vence o mais forte. E eu sabia bem demais que entre ele e eu, o falcão era o mais forte… Pelo menos, os animais não matam só por matar, como eu e muitos outros fazem…
De repente e para minha grande admiração, quando o falcão já me estava quase a apanhar, surgiu um pássaro não sei de onde e bicou-o, corajosamente, no rabo, desviando-lhe a atenção. Fiquei tão atarantado que mal consegui perceber quem era. Desta vez escapara por pouco. Escondi-me entre as ramagens de uma árvore, todo a tremer e mais branco que um fantasma, certamente.
O falcão voou atrás do outro pássaro. Este, entrou rapidamente num buraco de uma árvore e o falcão perseguiu-o. Desatou a bicar a árvore, furioso e como não conseguisse nada, andou a voar em círculos à volta da árvore, esperando para atacar o meu salvador.
Fiquei sem saber o que fazer. Sentia que devia salvar aquele que me salvara, mas o medo que sentia era muito grande e paralisara-me.
Por fim, o falcão desistiu de esperar e voou dali para fora, já tarde, na minha opinião.
Voei para a árvore e espreitei lá para dentro e só então pude ver o meu salvador. Era um pássaro do meu tamanho, azulado, com o peito e a barriga amarelos e com os lados da cabeça brancos, com uma lista preta por altura dos olhos, como se fosse o Zorro. Tremia tanto que até metia impressão. Pudera! Não era para menos…
— Já se foi embora! Podes sair! — disse eu na minha linguagem de pássaro e então percebi que ele me entendera, para minha alegria. Pelo menos havia alguém com quem eu poderia falar daqui para a frente.
O outro pássaro pôs a cabeça de fora, ainda desconfiado e depois saiu.
— Safa! Foi por pouco! Estava a ver que ia servir de almoço àquele falcão. Devia estar tão esfomeado como eu — respondeu ele.
— Obrigado pela ajuda. Foste um grande amigo… — agradeci eu, um pouco embaraçado, pois não tinha por hábito agradecer fosse o que fosse ou pedir desculpa a alguém.
— Não foi nada. Tenho a certeza que farias o mesmo por mim — respondeu ele.